Jeremias: “por que eu nasci?” — E pediu para si a morte

Quem dera eu tivesse morrido no ventre de minha mãe e seu corpo tivesse sido minha sepultura! Por que eu nasci? Toda a minha vida é apenas sofrimento, tristeza e vergonha. 

Jeremias 20.17-18 

 

Quando pensamos em lamento na Bíblia, lembramos de Jeremias. Ele, que é o autor não apenas do livro que leva o seu nome, mas também do livro de Lamentações, é muitas vezes chamado de “profeta chorão”. Afinal, dentre os profetas, ele é o que parece mais lamentar e chorar diante de Deus. Porém, seu lamento não é nenhum exagero, e, sim, resultado de um sofrimento terrível. 

 

Em vez de “chorão”, ele deve ser visto como um profeta forte, que suportou sobre si um ministério marcado pelo sofrimento e anúncio da desgraça. Até porque, apesar de ter inúmeros motivos para desistir — e muitos teriam desistido! —, ele, “apesar de se queixar a Deus e questionar por que seu trabalho era tão árduo e sofrido, nunca abandonou o seu chamado”. 

 

Repreendendo reis, profetas e sacerdotes, Jeremias se viu como alvo de várias dificuldades como: perseguição, conspirações, aprisionamento, ser declarado como digno de morte, ter suas profecias destruídas, ser acusado de traição, etc. E, diante de tanto sofrimento e dificuldades, a reação do profeta não foi apenas chorar, mas também: interceder por Judá, discutir com Deus, desmascarar e enfrentar falsos profetas, predizer a destruição do Templo de Jerusalém, e predizer a destruição de toda a nação. 

 

Ele foi, portanto, um homem corajoso, que fez a vontade de Deus e que sofreu profundamente em virtude disso. Porém, Jeremias se mantinha firme, apesar de toda a oposição e perseguição, pois “fazia a vontade de Deus e não a do povo”. Por isso, pode-se dizer que “sua perseverança e foco em seu chamado são exemplos dignos de serem imitados”, servindo de exemplo para os pastores que, hoje, passam por dores e angústias.

 

Em função de tanto sofrimento, ele recebe, já no seu tempo, um apelido: “Homem que Vive em Terror” (Jr 20.10). Afinal, anunciando apenas desgraças, ele passa a ser visto como alguém que tem apenas o terror diante dos seus olhos. Frente a isso, Deus manda que Jeremias diga a Pasur, o sacerdote, que é ele o “Homem que Vive em Terror” (Jr 20.3), ou “Terror-Por-Todos-Os-Lados” (Jr 20.3, ARA), pois seria Pasur que veria Jerusalém ser saqueada e seus amigos mortos. Assim, “o povo estava usando esta expressão a respeito de Jeremias, mas ele vira esta palavra contra Pasur”.

 

Porém, por mais que Pasur seja, da parte de Deus, o “Homem que Vive em Terror”, não podemos deixar de considerar o efeito do terror dentro de Jeremias. Ele, que anuncia o terror, vive um dilema profundo: sabe que Deus fará justiça, vingando-o, mas também sabe que o sofrimento lhe aguarda. Assim, no meio de seu sofrimento, apresenta a Deus um lamento com profunda tristeza, no qual declara: “Quem dera eu tivesse morrido no ventre de minha mãe e seu corpo tivesse sido minha sepultura! Por que eu nasci? Toda a minha vida é apenas sofrimento, tristeza e vergonha” (Jr 20.17-18). 

 

JEREMIAS E O LAMENTO: O DESESPERO 

O lamento de Jeremias é uma marca de seu ministério, de modo que não vemos o todo de seu ministério se não vemos sua pessoa, para além de suas profecias, e se não lemos, para além do livro de Jeremias, o livro de Lamentações. Afinal, apesar de o livro de Jeremias não se concentrar no profeta, não sendo um livro biográfico, “é visível a relação entre a pessoa do profeta em si e sua mensagem teológica”, de modo que neste livro podemos ver que a “tradição registra, comparativamente, mais pormenores acerca do seu destino e personalidade do que para qualquer outro profeta”. E, no que diz respeito à pessoa de Jeremias, não podemos ignorar seu sofrimento, expresso especialmente em suas Lamentações. 

 

Quando lemos o livro de Lamentações, vemos que ele “é um testemunho da cidade destruída e do caos estabelecido”, pois, como é anunciado logo no começo do livro, “a cidade que antes era cheia de gente agora está deserta” (Lm 1.1). E, por mais que o sofrimento fosse evidente naqueles que foram levados cativos, aqueles que ficaram, como Jeremias, também sofreram profundamente. Jeremias não é “chorão” por lamentar o que viu, pois o que viu foi realmente traumatizante e desesperador: “Chorei até que não tivesse mais lágrimas; meu coração está aflito. Meu espírito se derrama de angústia, quando vejo a calamidade de meu povo. Crianças pequenas e bebês desfalecem e morrem nas ruas” (Lm 2.11). 

 

A imagem vista por Jeremias foi de guerra, vendo crianças morrendo de fome: “Clamam às mães: ‘Estamos com fome e sede!’. Desfalecem nas ruas, como o guerreiro ferido na batalha. Lutam para respirar e morrem lentamente nos braços maternos” (Lm 2.12). Mesmo pedindo ajuda, desesperadas, as crianças não têm resposta: “A língua seca dos bebês gruda no céu da boca, por causa da sede. As crianças imploram por um pedaço de pão, mas ninguém as atende” (Lm 4.4). Uma imagem terrível, que é descrita por uma pessoa que foi “testemunha ocular, que parece estar tão chocada e revoltada pelo que viu que é incapaz de esquecê-lo”. Um trauma que Jeremias levou consigo e que o fez sentir um desencanto com a vida. 

 

Imagens deste tipo não são lamentadas por alguém que é “chorão”, mas por alguém que foi tão profundamente impactado e que simplesmente não consegue esquecer o que viu, de modo que acaba sofrendo com tudo que vivenciou. Não é à toa que desde o século XX se percebeu a importância de veteranos de guerra terem acompanhamento psicológico e terapêutico, uma vez que as consequências daquilo que viram na guerra não são fáceis de se lidar, especialmente sozinhos. A situação se tornou um verdadeiro problema de saúde pública nos Estados Unidos, uma vez que, após 2001, morreram mais veteranos de guerra americanos do que soldados em combate: 30.177 suicídios de veteranos de guerra em comparação a 7.057 mortes em operações de guerra. 

 

O acompanhamento de veteranos é fundamental, uma vez que precisam de ajuda para lidar com tudo que vivenciaram e viram enquanto estiveram na guerra. Afinal, mesmo quando já voltaram para casa, acabam levando suas experiências junto em suas memórias. Jeremias e os demais judeus também viveram um desespero terrível em virtude das atrocidades que viram, carregando na memória situações assustadoras: mães devorando os filhos, por causa da fome; sacerdotes sendo mortos dentro do Templo (Lm 2.20); e, agora, após tudo ter “passado”, permanecem os cadáveres estirados nas ruas para lembrar-lhes de que o terror permanece: “Estão jogados nas ruas, jovens e velhos, rapazes e moças, mortos pelas espadas do inimigo” (Lm 2.21). 

 

Porém, para além de tudo que viram, há um desespero em função daquilo que não conseguem ver: a esperança. Só se pode ver “terror por todos os lados” (Lm 2.22), tal como o apelido de Pasur e Jeremias. Há, portanto, um verdadeiro desespero como perda da esperança: um desesperar. É como se só se pudesse ver trevas, e nem mesmo uma pequena luz no fim do túnel: “Ele me conduziu para a escuridão e removeu toda a luz” (Lm 3.2). Afinal, diante de tudo aquilo que viram, e do mal que aguardam, sentem como se não houvesse nada mais de bom para se esperar. 

E pediu para si a morte — personagens bíblicos que quase desistiram

Para além dos casos de suicídio na Bíblia, há também os casos de prevenção ao suicídio: pessoas que quase desistiram, chegando ao ponto de pedirem para si a morte, mas que foram amparadas e cuidadas por Deus.

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