Nele, brilhavam três grandes eminências:

Era historiador, poeta e pregador em excelência.
Deixem-no repousar na poeira imperturbável,
Até a ressurreição desse santo inculpável.

OS PRIMEIROS ANOS

John Bunyan nasceu em novembro de 1628, em Elstow, um vilarejo a cerca de 1,5 quilômetro da cidade de Bedford. Seu pai, Thomas Bunyan, fabricava e consertava panelas e chaleiras. Sua mãe, Margaret Bentley, provinha de uma família mais abastada. John gostava de definir sua família com estando “entre a multidão dos pobres lavradores”. Mesmo sem muitos recursos financeiros, os pais de Bunyan o enviaram à escola. No entanto, ele frequentou as aulas tempo suficiente para apenas aprender a ler e escrever. Desde cedo aprendeu o ofício do pai e ajudou no sustento da família.

Sua mãe morreu em junho de 1644, e sua irmã mais nova um mês depois. Em agosto do mesmo ano, seu pai se casou novamente. Esse novo relacionamento parece ter gerado o afastamento entre pai e filho, levando John a passar os três anos seguintes servindo como soldado na Guerra Civil Inglesa, muito provavelmente apoiando os Parlamentaristas sendo liderado por Sir Samuel Luke. Os anos passados nesse conflito influenciariam a escrita de alguns episódios dos livros de Bunyan no futuro. Somente um soldado experiente poderia escrever, com tanta riqueza de detalhes, as cenas de algumas das lutas encontradas em O peregrino, por exemplo.

Cedo em sua vida, Bunyan se embrenhou em uma vida de jogos e bailes. Pouco depois de ser dispensado do exército, casou-se com sua primeira esposa, entre 1647–48. Em sua autobiografia Graça abundante ao principal dos pecadores (Editora Fiel, 2012), ele afirma que, quando se uniram, os dois eram “tão pobres quanto os pobres devem ser, sem possuir muitos implementos caseiros, além de um prato e uma colher, que compartilhávamos”. Apesar de serem tão destituídos, a esposa de Bunyan trouxe consigo, como dote de casamento, dois livros — uma extravagância para aqueles tempos: The Plain Man’s Pathway to Heaven (A Jornada do homem comum ao Céu) de Arthur Dent e The Practice of Piety (A prática da piedade) de Lewis Bayly. Essas duas obras e o comportamento cristão de sua esposa influenciaram Bunyan a um despertamento espiritual. Tiveram quatro filhos, a primeira deles, Mary, nasceu cega e era alvo de especial afeto de seu pai.

 

A CONVERSÃO

Os quatro anos seguintes foram de intenso conflito espiritual interior para Bunyan: se, por um lado, sua carne almejava continuar na prática do pecado, por outro, seu espírito, tocado pela graça divina, sentia o peso da condenação e o desejo de salvação. Certo domingo à tarde, enquanto jogava Tip Cat, uma voz do Céu lhe veio à mente, que dizia: “Você abandonará seus pecados e irá ao Céu, ou continuará pecando e irá ao inferno?”. Naquele momento, Bunyan não deu importância à profunda inquietação que lhe sobreviera ao espírito. Mas, pouco depois, buscou numa vida de legalismo a redenção de sua alma. Começou a frequentar a igreja, mudou seu linguajar e a forma de se vestir. Contudo, quando confrontado por um sermão sobre a observância do Dia do Senhor, Bunyan decidiu voltar aos seus velhos hábitos.

Em Graça abundante, conta como certa vez, enquanto passava pela rua, ouviu três ou quatro senhoras conversando “sobre seu novo nascimento, a obra de Deus em seus corações e a forma pela qual se convenceram de seu estado natural de miséria. Falavam como Deus havia visitado sua alma com Seu amor em Cristo Jesus e com que palavras e promessas foram renovadas, consoladas e sustentadas contra as tentações diabólicas”. Essa conversa levou-o a desprezar o pecado em sua natureza.

Em 1650, veio a conhecer o pastor puritano John Gifford em sua casa paroquial na igreja de Saint John — então uma comunidade independente —, em Bedford. Nesta ocasião, conversaram sobre a salvação e a verdadeira mensagem de Jesus. No entanto, a rendição definitiva de Bunyan a Cristo ocorreu um ano depois influenciado pela conversa das senhoras, com o pastor Gifford e pela leitura de Comentário da epístola de São Paulo aos Gálatas (Ed. Sinodal, 2017, vol. 10) que, depois da Bíblia, era seu livro de referência. Neste mesmo ano, começou a frequentar essa congregação em Bedford, embora permanecesse morando em Elstow. Tornou-se membro e diácono em 1653.

 

O APRISIONAMENTO

Seu talento para o ensino e pregação tornaram-se proeminentes, e ele pregava tanto em sua igreja quanto em outras comunidades para onde era convidado. Neste tempo, a Igreja do Estado, ou Anglicana, regulava toda a atividade de pregação, qualquer grupo ou indivíduo que se lhe opusesse era considerado ilegal e consequentemente perseguido.

Entre 1655–60, Bunyan envolveu-se em controvérsias com os Quakers. Os vários panfletos e livretos que produziu durante este período, como resposta à doutrina Quaker, fizeram despontar seu talento literário. O ano de 1658 foi o da morte de sua primeira esposa e do primeiro indiciamento de Bunyan pela atividade ilegal de pregação sem a devida licença da Igreja da Inglaterra, que acabou por não resultar em julgamento ou prisão. No entanto, nem mesmo esses dois tristes fatos impediriam esse arauto divino de permanecer pregando a Palavra de Deus com ousadia.

Em 1659, aos 31 anos, casou-se pela segunda vez com uma jovem que tinha entre 17 e 18 anos, Elizabeth Bunyan, com quem teve mais dois filhos. Em 1660, a perseguição aos não-conformistas, ou puritanos, se acirrou. O antigo Livro das Orações, promulgado no reinado de Edward VI (1547–53), foi reativado, e proibido qualquer culto que não seguisse essa liturgia.

Ao saber que Bunyan estaria pregando no vilarejo de Lower Samsall, o juiz Francis Wingate emitiu um mandado de prisão contra ele. Quando estava no meio do sermão, a polícia adentrou o ambiente e o levou preso, onde permaneceu aguardando seu julgamento. Seu indiciamento afirmava, mesmo que não estivesse apoiado por testemunhas: “John Bunyan, da cidade de Bedford, trabalhador, tem se abstido de forma diabólica e perniciosa de vir à igreja para ouvir o culto divino e é defensor comum de várias reuniões ilegais, que causam grande perturbação e distração dos bons súditos deste reino, contrariamente às leis de nosso soberano senhor e rei”. Ao pronunciar sua sentença, o juiz Keeling disse: “Ouça seu julgamento: você será levado novamente à prisão, e por três meses seguidos lá permanecerá. Ao final desses três meses, se não se submeter a ir à igreja ouvir o culto divino, e a abandonar sua pregação, será banido do reino. Ou, se for encontrado pregando de novo sem licença do rei, será enforcado por isso. Digo-lhe sem rodeios. Carcereiro, leve-o!”. A resposta de Bunyan foi: “Se me soltarem da prisão hoje, pregarei de novo amanhã, com a ajuda de Deus!”. Foi condenado a 12 anos de encarceramento em 12 de novembro de 1660.

Sua esposa apresentou-se diante de juízes de cortes superiores em Londres em duas tentativas de apelação dessa sentença. Outros amigos também intercederam por ele, porém foi tudo em vão.

Apesar do cárcere em Bedford ser repugnante, o tratamento dispensado aos prisioneiros era humanizado. De dentro da prisão, Bunyan participava na fabricação de cadarços para sapatos, o que o ajudava no sustento da família. Recebia visitas regulares, especialmente de sua filha cega, que lhe trazia sopa para o jantar, e ele também podia, por vezes, sair da prisão para visitar sua família e pregar. Em uma dessas ocasiões, um sacerdote anglicano soube da saída de Bunyan e o delatou. Porém, neste dia Bunyan sentiu-se espiritualmente incomodado a voltar antes da hora marcada para o presídio. Quando o mensageiro chegou para verificar se todos os prisioneiros estavam em suas celas e bem, a confirmação de que Bunyan estava presente afastou a suspeita. Mais tarde o carcereiro lhe disse: “Você pode sair quando quiser porque sabe melhor do que eu quando deve retornar”.

Outra liberdade que também lhe foi conferida foi a de ler, estudar e escrever. Durante esse aprisionamento, Bunyan escreveu sua autobiografia Graça abundante ao principal dos pecadores, que foi publicada em 1666. Entre seus livros favoritos, nesta fase de sua vida, estava O livro dos mártires, de John Foxe.

 

OS ÚLTIMOS ANOS

Sua soltura ocorreu em 1672, quando foi emitida a Declaração de Indulgência pelo rei Charles II. Foi-lhe dada autorização para pregar na região de Bedforshire com outros 25 ministros. Ficou, então, conhecido como o “bispo Bunyan”, dando a entender que seria o líder entre todos eles. O prédio da igreja de Saint John, onde, antes do encarceramento, Bunyan frequentava e pregava, havia retornado à Igreja Anglicana, e a congregação agora se reunia em um celeiro. A fama de Bunyan se espalhou, e até em Londres era convidado a pregar, onde, segundo um registro, em certa manhã gelada 1200 pessoas se reuniram para ouvi-lo. Foi um tempo de descanso e prosperidade para esse provado servo de Deus.

Contudo, em 1675 a atitude do governo para com os puritanos mudou e muitas licenças para pregar foram revogadas, entre elas a de Bunyan. Em março de 1676, após outra ordem de prisão, John Bunyan retornou ao cárcere onde permaneceu por seis meses. A tradição diz, na falta de relatos históricos precisos, que teria sido nesta ocasião que ele teria escrito sua obra mais notável, O peregrino, publicado pela primeira vez em 1678.

Devido à sua popularidade, Bunyan teria recebido um indulto real e depois disso desfrutou de liberdade até o fim de sua vida. Sua influência cresceu e seu ministério abrangeu pregações em quase todas as partes da Inglaterra.

Em seus últimos anos de vida, ainda escreveu muitas e excelentes obras, entre as mais conhecidas estão: The Life and Death of Mr. Badman (Vida e morte do Sr. Maldoso, 1680), A Guerra Santa (1682), A peregrina (1684). John Bunyan escreveu um total de 61 obras entre panfletos, livretos e livros.

Morreu de gripe em 31 de agosto de 1688, em Londres, para onde fora apaziguar uma disputa entre pai e filho. Foi sepultado em Bunhill Fields, cemitério dedicado aos puritanos.

 

Conheça as obras de John Bunyan