Deus é a nossa herança — Sermões da Bíblia de Spurgeon

Senhor, tu és minha herança; prometo obedecer às tuas palavras! Salmo 119.57


Observe a íntima ligação entre privilégio e dever. “Senhor, tu és minha herança.” Essa é uma indizível felicidade. “Prometo obedecer às tuas palavras!” — essa é a retribuição adequada a tal bênção. Toda misericórdia que nos é concedida pelo Senhor traz consigo um crédito que, em gratidão, devemos reconhecer.


Perceba muito cuidadosamente a ordem em que o privilégio e o dever estão organizados. A bênção da graça vem primeiro, e o fruto da gratidão vem a seguir. A graça concedida é a raiz, e a resolução é o fruto decorrente dela. Não se trata de “’prometo obedecer às tuas palavras’ para que tu sejas a minha herança, ó Senhor”. Não — primeiramente, a herança é desfrutada pela fé e, depois, a resolução é formada. “‘Tu és minha herança’, ó Senhor, eu já tomei posse de ti. Portanto, com a Tua ajuda, obedecerei às Tuas palavras.” O dever para que haja privilégio é a Lei — graças a Deus por não estarmos debaixo dela, pois nunca obteríamos uma única bênção por esse meio. Porém, privilégio para que haja obediência é o evangelho — Deus conceda que possamos conhecer a plenitude do poder desse evangelho para santificar a nossa alma. 


O Senhor precisa ser primeiramente a sua herança antes de você ser capaz de obedecer às Suas palavras. Como pode um homem guardar o que não recebeu? Sem Deus para ser a nossa herança, de onde virá a força para cumprir um dever tão difícil quanto obedecer às palavras de Deus? Todos vocês, cuidem de não inverter essa ordem. Não coloquem, como diz o velho provérbio, a carroça à frente dos bois. Permitam que todas as coisas aconteçam em seu devido curso e ocupem as suas devidas posições, pois da colocação errada das coisas decorre prejuízo. Primeiramente, recebam graça divina até poderem dizer “Senhor, tu és minha herança” e, depois, expressem na forma de serviço diário o que Deus operou em seu interior e afirme: “Prometo obedecer às tuas palavras!”.


Cada posse envolve não somente o serviço, mas o serviço adequado, da mesma maneira como cada planta possui sua própria flor. O princípio geral que pede serviço tem uma aplicação específica, pois cada benefício específico do evangelho está ligado a algum serviço evangélico especial. O inexprimível dom de ter Deus por nossa herança tem, atrelado a si, a peculiar excelência de obedecer às palavras de Deus; um objetivo deste sermão será mostrar que isso não é, de modo algum, um arranjo acidental, mas que realmente existe uma verdadeira conexão e esta deve ser seriamente reconhecida por todo filho de Deus. Por poder dizer “Senhor, tu és minha herança”, você tem também o dever de acrescentar “Prometo obedecer às tuas palavras!”.


“Senhor, tu és minha herança.” É melhor ter o nosso bom Deus do que todos os bens do mundo. É melhor termos Deus como nosso tudo do que termos tudo e estarmos sem Ele. Quem possui Deus vive na nascente e bebe da fonte que flui ininterruptamente. Quem possui os mais refinados bens mundanos, à parte do Senhor, só bebe dos resíduos sujos que permanecem nos cantos das cisternas rompidas da Terra. O que é o Universo inteiro comparado Àquele que o fez? O que são os prazeres egoístas do pecado em comparação com a plenitude de alegria que sempre habita à direita de Deus?


Davi diz: “Senhor, tu és minha herança”, evidentemente em oposição à futura herança dos ímpios. “Fará chover brasas vivas e enxofre sobre os perversos e com ventos abrasadores os castigará.” Virá aos ímpios um terrível despertar de seu sonho de segurança. Eles acordarão em outro mundo e descobrirão que sua riqueza se esvaneceu, suas alegrias fugiram para sempre e que devem sofrer eternamente a perda de tudo e permanecer totalmente arruinados. Para eles, um mal indizível é preparado e uma ira semelhante à de um furacão feroz abrasará interminavelmente sobre as suas almas culpadas, mas “Senhor, tu és minha herança”. Para mim não haverá laços mortais na vida, nem tempestade horrível na morte. Enquanto eu permanecer neste corpo, serei alimentado com a Tua bondade e, quando eu dormir e depois acordar à semelhança do meu Redentor, me encontrarei em eterna posse do meu Deus, que é o meu tudo em tudo.


A distinção também não termina aqui. Davi faz uma distinção entre a sua verdadeira posição e os confortos terrenos com os quais o Senhor o dotou. Ele era rei e tinha muitas posses, mas nenhuma delas era a sua herança. Uma parte do povo do Senhor não está sujeita a pobreza angustiante; pelo contrário, é abençoada com muitos confortos pelos quais deve louvar a Deus dia e noite, mas nenhuma dessas coisas é sua herança peculiar como coerdeiros com Jesus. Amados, o que quer que possuamos neste mundo, somos obrigados a voltar nossos olhos a Deus e dizer: “Esta não é a minha herança. O Senhor é a minha herança”. Os confortos desta vida são como a mesada do jovem — eles não são a propriedade da qual ele é herdeiro, na qual ele entrará quando a plenitude do tempo vier.  


As misericórdias atuais são um gole ao longo do caminho, um bocado que é ingerido para satisfazer o estômago — nossa refeição completa será usufruída no grande “casamento do Cordeiro”. Somos como Abraão, Isaque e Jacó em Canaã, habitando em tendas, como estranhos e estrangeiros. Os rebanhos que pastam em torno do nosso acampamento são muito valorizados, mas, mesmo assim, não olhamos para essas coisas como nossa herança — a própria Canaã é a porção de nossa herança pactuada — e nada mais nos contentará. Buscamos uma cidade que tem alicerces eternos cujo planejamento e construção foram feitos por Deus. Ó, amados, cuidem para que as coisas comuns não sejam a sua herança. Se as riquezas aumentarem, não coloquem nelas o seu coração. Mesmo que Deus o beneficie com uma família saudável e feliz, que você usufrua de boa saúde física, que o seu negócio prospere, e que o Senhor derrame sobre você abundantes misericórdias temporais, nunca faça dessas coisas seus ídolos. Viva acima delas e diga: “Não posso me apegar a isso. O Senhor é a minha herança”.


Penso que Davi estendeu essa distinção até a eternidade. Alguns pensam no Céu como uma coisa e outros, como outra. O grande desejo de alguns é ter comunhão com crentes de todas as idades. Outros anseiam pelo paraíso como um lugar de conhecimento ampliado, para conhecerem até mesmo como são conhecidos; e ainda outros se alegram com ele principalmente como um refúgio de descanso. Há fundamento para cada uma dessas formas de desejo, mas, no tocante ao Céu, o principal pensamento do cristão é que ele estará com Deus e que Deus será eternamente a sua alegria e felicidade. Nenhum pecado ocultará o resplendor da glória de Javé de nossos olhos. Nenhuma dúvida perturbará a profunda tranquilidade do nosso gozo do amor de Javé quando adentrarmos totalmente a nossa porção. Estaremos eternamente com o Senhor e nada mais ou melhor pode ser imaginado. 


Deus é o nosso paraíso. Quem mais tenho eu no Céu? Então, faça sempre uma clara distinção entre as coisas que são vistas, que não são a sua porção, e as coisas que não são vistas, que são a sua verdadeira herança. E entre as alegrias temporais e fugazes que nos divertem pelo caminho e a felicidade permanente e eterna que nos satisfará no fim. Não permita que coisa alguma se oponha ao bem principal em seu julgamento ou em suas afeições, mas clame sempre: “Ó Deus, tu és meu Deus; eu te busco de todo o coração”.

Bíblia de estudos e sermões de Charles Haddon Spurgeon

A Bíblia de estudos e sermões de Charles Haddon Spurgeon é inédita no mundo! Quando a idealizamos não imaginávamos o desafio que teríamos pela frente. Não foi tarefa fácil selecionar textos entre os mais de 3.000 excelentes sermões de Charles Haddon Spurgeon (1834–92). Traduzi-los de forma a respeitar o estilo do autor e a comunicar claramente com o leitor brasileiro exigiu sensibilidade. Desta forma, essa Bíblia mencionará eventos contemporâneos a Spurgeon e as tecnologias disponíveis em sua época. Apesar de terem sido escritos há mais de um século, as exortações e as consolações conservam uma atualidade impressionante.

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