Nos séculos anteriores à Reforma Protestante, a prática religiosa estava cada vez mais voltada à política e ao poder da Igreja. O ensino da Palavra de Deus fora substituído por uma ênfase no ensino das tradições romanas que disseminavam o medo e a extrema dependência das organizações eclesiásticas. Monarcas se dobravam diante da autoridade papal e a liberdade individual era cerceada. Enquanto a Igreja enriquecia, os Estados e a população se enfraqueciam.

Como reação, a Reforma Protestante veio restabelecer o ensino bíblico da salvação pela fé e pela graça encontrada somente em Cristo, a primazia das Escrituras como revelação de Deus e o fato de que somente Deus deve ser glorificado como soberano. Com isso, a sociedade da época foi impactada com as grandes mudanças ocorridas não somente no campo religioso, mas político, econômico, social e educacional.

No entanto, com o passar dos séculos as práticas protestantes vêm se diluindo. A crise de valores da sociedade atual confronta a agenda da Igreja que precisa dar uma resposta às suas indagações sem ceder às pressões para se amoldar ao sistema imperante.

É necessário que haja um movimento de retorno à prática das virtudes e aos princípios da vida no Reino, como exemplificado na vida de Jesus. Esse foi o padrão que os reformadores adotaram para orientar a vida na Igreja há 500 anos. E devem orientar o povo de Deus por todos os séculos, até que Cristo volte.

Quais são essas virtudes? O autor teólogo Joe Stowell compartilha
brevemente sobre como podemos seguir as virtudes do Rei na prática de um cristianismo firmado nas Escrituras e relevante para a sociedade atual.

“Há pelo menos sete virtudes do reino refletidas em Cristo, que podem ser mais bem entendidas se  contrastadas com os valores mundanos com os quais essas virtudes competem. São elas:

 

 

O valor governante neste mundo é a tolerância. Como os filósofos chegaram à conclusão de que não há certo ou errado, pensamos que para sermos “modernos” devemos aceitar tudo. Por isso a liberação homossexual, o aborto, a expressão sexual ilimitada e outros pecados são tolerados por completo pela sociedade. Por essa mesma razão, as diversas ideologias podem ser aclamadas como válidas, mesmo diante de seus fracos resultados.

Os cidadãos do Reino fundamentam sua vida na virtude da verdade.
Isso nos coloca, inevitavelmente, em conflito com o domínio do qual fomos libertos. Se há verdade, há engano. Se há o certo, há o
errado. Uma pessoa do Reino sempre tolerará aqueles que estão no engano, mas nunca o engano em si.

Como cidadãos do Reino, aceitamos e expressamos a verdade, cuja fonte é a Palavra de Deus. Por ela temos as bases sólidas para as conclusões sobre a vida, apesar do estado de negação que nossa cultura se encontra.

 

 

A graça é o complemento perfeito à verdade. Pavimenta o caminho do viver no padrão da verdade.

No mundo atual, os fracos são vitimados, descartados e marginalizados. No Reino, a graça encoraja e capacita o fraco, inclusive nossos inimigos. A graça perdoa, permitindo restauração. Compartilha, recursos para suprir necessidades. Aconselha pacientemente. Ouve, entende e ama. A graça vê o potencial antes de ver os problemas.

Onde estaríamos hoje se nossa vida não tivesse sido sustentada pela graça do Rei, que compartilha Seu poder e recursos conosco para nosso benefício eterno?

 

 

O amor incondicional por todos era claramente expresso em todas as atividades de Cristo. Seu amor transcendia a ética humana, gênero, moral e barreiras socioeconômicas. Jesus é amor e não pode evitar amar. Esse é um aspecto essencial de Seu caráter.

O valor cultural que compete com o amor não é o ódio, mas sim o egoísmo. Neste mundo sedento por números, em que os interesses pessoais e a desconsideração das necessidades do outro são estimulados, o peregrino autêntico rejeita o domínio terreno e busca ser uma bênção para os outros. Numa época em que o egoísmo nos isolou em guetos, nos tornou solitários e insatisfeitos, em que corações anseiam por amor verdadeiro e se preocupam com a falta de compromisso, o impacto do
amor fluindo de uma vida do Reino cortará como feixe de laser na escuridão deste mundo e atingirá as pessoas que procuram pela luz de Cristo, o Rei.

 

 

É fascinante perceber que quando Cristo, o Rei, chegou ao nosso planeta, tendo a posição mais elevada no Universo, Ele a usou para servir. Apropriou-se da identidade de servo e instruiu Seus discípulos a adotarem essa mesma perspectiva. Isso estabelecia, de modo significativo, grande contraste com a obsessão pelo domínio. Jesus afirmou: “…Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (MATEUS 20:25-28). O sucesso no Reino é  censurado por nosso serviço aos outros.

 

 

Jesus demonstrou mais claramente essa virtude quando foi tentado pelo diabo, no deserto. Seus instintos básicos estavam vulneráveis por causa do prolongado jejum de 40 dias. Satanás o tentou com alimento, autoafirmação, poder, fama e posição. Cristo, no entanto, colocou-se sob uma autoridade moral mais elevada que Satanás, utilizou o poder da Palavra de Deus para conduzir Suas respostas e, como resultado, disse não aos Seus impulsos para que pudesse dizer sim à honra e glória de Seu Pai.

Diante da assombrosa pressão do sensualismo em nossos dias, a virtude do domínio próprio se coloca como marca clara do Reino.

 

 

A justiça do Reino contrasta radicalmente com a opressão e deslealdade ostensivas e persistentes, às quais as pessoas são  propensas. É interessante como somos cristãos passivos com relação à opressão e aos sistemas opressivos. Poucas vozes se erguem contra estruturas racistas que negam intencionalmente autoridade, decência e dignidade às pessoas.

As pessoas do Reino devem estar dispostas a levantar-se em prol daquilo que é certo e justo. Não oprimiremos, controlaremos ou depredaremos os mais fracos para nosso benefício. A graça do Reino busca os proteger e capacitar.

 

 

A humildade verdadeira está relacionada com duas escolhas básicas. A primeira é reconhecer que tudo o que somos e  conquistamos é devido exclusivamente ao fato de que outra Pessoa tornou nosso êxito possível. A segunda, a verdadeira humildade escolhe humilhar-se em submissão a uma autoridade moral mais elevada. Nosso Rei demonstrou verdadeira
humildade não somente dando glória a Seu Pai e aceitando a tarefa que lhe foi conferida, mesmo numa condição terrena de desabrigo. Ele também estava disposto a obedecer ao Pai durante todo o caminho para a cruz.

Essas virtudes são a chave para que haja coerência em nossas atitudes e elas nos protegem das consequências de valores terrenos. A semelhança com Cristo é resultado de um mundo interior administrado pelo Rei. O maior elogio que podemos receber nesta vida é os outros perceberem que parecemos com o Rei.”