A trama da história de Rute se desenrola no tempo dos juízes, um período de bárbara opressão e derramamento de sangue, e a fome era somada à sua desgraça. Em Belém não havia comida, então Elimeleque escolheu levar sua família para Moabe.

Lá, a família enfrentou primeiramente a perda de Elimeleque. Nessa mesma época, os filhos, que haviam se casado com mulheres moabitas, também morreram. Portanto, essa narrativa começa com três viúvas numa situação triste e desesperadora. Porém, em Belém, a fome havia passado. Orfa e Rute enfrentariam um futuro incerto se voltassem com Noemi para Belém. As duas jovens deveriam permanecer em Moabe. Noemi as beijou e com isso as liberou de qualquer obrigação familiar. Elas haviam ficado voluntariamente com Noemi após a morte de seus maridos, mas não podiam perder sua própria felicidade para cuidar da sogra. Sem poder fazer qualquer coisa pelas noras, Noemi orou para que Deus as sustentasse e lhes desse um marido que cuidasse delas.

No entanto, Orfa e Rute responderam: “Queremos ir com você para o seu povo!”. Quer tenha sido por lealdade aos maridos mortos, quer por amor à sogra, Rute e Orfa decidiram seguir para Belém, mas Noemi tentou demovê-las dessa decisão.

O argumento de Noemi foi mais do que um esforço para as persuadir a não permanecerem com ela. É também um lamento acusando Deus de arruinar a sua vida. Basicamente Noemi disse a Orfa e Rute que, se Deus a estava castigando, permanecer na companhia dela seria buscar o infortúnio.

O segundo esforço em persuadi-las foi eficaz para Orfa. Mas Rute ficou inabalável em sua decisão de permanecer com Noemi e declarou-lhe o seu amor e a sua amizade (1.16,17), que convenceram a sogra a desistir de persuadi-la do contrário.

O amor leal de Rute a fez decidir pelo povo e pelo Deus de Noemi. Ambas enfrentariam dificuldades. Porém, Rute estava disposta a enfrentar isso numa cultura estrangeira, onde não tinha qualquer certeza ou garantia.

As duas seguiram viagem e, quando chegaram a Belém, “toda a cidade se agitou por causa delas” (1.19). Mais de dez anos tinham se passado desde que Noemi e sua família haviam deixado a cidade. “Será que é mesmo Noemi?”, as mulheres questionavam.

Ao ouvir o seu nome, Noemi se lembrou da ironia que ele continha. Noemi significa “agradável” ou “adorável.” “Agradável?”, indagou ela. “Chamem-me de Mara, Amarga.” E, conforme falava, sua indignação com Deus foi manifesta mais uma vez ao afirmar que o Senhor lhe tirara tudo. Concentrou-se no negativo e se tornou amarga.

Sua chegada a Belém se deu no início da colheita de cevada. Ambas precisavam de comida, então Rute decidiu seguir os ceifeiros durante a colheita para recolher do chão qualquer grão que fosse deixado para trás.

Rute acabou entrando no campo pertencente a Boaz, parente de Elimeleque, seu sogro. Por trás do que parece ser “sorte”, repousa o propósito divino. Mesmo nos “acasos” da vida, a mão de Deus está agindo por nós. De repente, esse parente rico e influente de Noemi apareceu na cena enquanto Rute estava lá!

Depois de uma rápida conversa com seu capataz, Boaz concedeu a Rute o status de “respigadora favorecida” em seus campos. Seguindo cuidadosamente suas instruções, Rute estaria protegida dos jovens que poderiam incomodá-la. Ela poderia recolher muito mais grãos do que o normal.

Boaz também a convidou para uma refeição adequada com seus ceifeiros. Ao final de seu primeiro dia, ela voltou para Noemi com um cesto com cerca de 22 kg de grãos. O sucesso de Rute excedera, em muito, as expectativas que ela tinha quando saíra pela manhã.

Noemi quis ouvir um relato completo. Um cesto tão grande e cheio de grãos significava que tinha recolhido num bom lugar. Onde fora? Nos campos de quem rebuscou? Quando informada de que fora nos campos de Boaz, Noemi louvou a Deus. Ele era parente da família e isso tinha um significado especial.

De certa forma, o plano de Noemi nos exemplifica a forma como Deus age por meio das ações humanas. Não devemos esperar passivamente que as situações ocorram. Quando uma oportunidade se apresenta, talvez precisemos tomar a iniciativa. Noemi fez exatamente isso.

Nos tempos do Antigo Testamento, os locais de debulha eram associados à libertinagem. Noemi estava apostando no caráter de Boaz, e que ele não se aproveitaria de Rute. Ela pediu à nora que se colocasse numa situação incerta e comprometedora.

A lei do levirato (Dt 25.5-10) determinava que se um homem morresse sem deixar herdeiros, seu irmão deveria casar-se com a viúva. O primeiro filho a nascer se tornaria o herdeiro legal do marido falecido e daria continuidade ao seu nome herdando suas propriedades. Se não houvesse irmão disponível para casar-se com a viúva, ela poderia pedir a um parente chegado que o fizesse. Aqui vemos Rute, a pedido de Noemi, usando um antigo e estranho costume para propor casamento a Boaz. Ela lhe pediu total proteção quando solicitou que colocasse sua capa sobre ela, como seu resgatador.

Eles não ficaram noivos naquela noite. Mas Rute sabia que se casariam caso o resgatador mais próximo declinasse. Boaz faria as coisas da maneira correta, e ela deixaria o resultado nas mãos de Deus.

As estratégias de homens e mulheres podem ser usadas por Deus para cumprir os Seus propósitos. Noemi apostou seu plano na integridade de Boaz que provou ser um homem honrado.

Reunindo dez testemunhas no portão da cidade, Boaz fala com o resgatador mais próximo sobre a propriedade de Elimeleque. “Claro”, ele respondeu. “Eu a resgatarei”. Parecia muito fácil. Ele teria que casar com a viúva para isso, mas achou que Noemi era idosa demais para ter filhos e ele acabaria ficando com a propriedade sem nenhum herdeiro para reclamá-la. Financeiramente, o investimento era uma barganha sem riscos.

Então Boaz expôs o argumento final: Rute viria com a propriedade. Se o resgatador mais próximo a comprasse, compraria Rute também. O homem seria obrigado a ter um filho com Rute para perpetuar o nome da família de Elimeleque. Em outras palavras, o parente não poderia ficar com a propriedade quando o filho atingisse a idade de reclamar sua herança. De repente, o plano do resgatador mais próximo sofreu uma alteração. Rapidamente ele abriu mão de seu direito. Boaz ficaria com Rute!

O que vem a seguir amarra todas as pontas soltas em nossa história. Não é sufi ciente que o rapaz fique com a garota, ou que a garota consiga o rapaz. Tudo isso tem um propósito maior.

Um dos propósitos é a continuidade do nome de Elimeleque sobre a herança. Para tal, Noemi precisaria de um filho. Quando seu resgatador, Boaz, e Rute, sua nora, tiveram um filho, vemos uma procissão pelas ruas de Belém. As mulheres estão carregando um bebezinho e o colocam nos braços de Noemi, dizendo: “Noemi agora tem um filho”. A mulher amarga e de mãos vazias agora está com as suas mãos cheias. Tem um neto para dar continuidade ao nome de seu marido. Esse filho de Boaz e Rute é o herdeiro legal de Elimeleque.

A história não termina aqui. Ainda há a genealogia como o ápice. “…Salmom gerou Boaz. Boaz gerou Obede. Obede gerou Jessé. Jessé gerou a Davi” (4.21,22). Davi! De repente, a simples e inteligente história humana sobre a dificuldade de duas viúvas assume uma nova dimensão e um propósito ainda mais amplo. A mulher amarga e uma estrangeira se tornam fios reluzentes no tecido da história de Israel.

Deus proveu pão, segurança e posteridade para Elimeleque e Noemi. Mais ainda, Deus proveu um grande rei para a nação de Israel por meio de uma mulher estrangeira. Deus usou a fidelidade de pessoas comuns para realizar grandes coisas.

Encontramos esses nomes mencionados na genealogia em Mateus 1.3-6. Mas esta não para em Davi. Após muitos nomes, lemos: “Jacó gerou José, marido de Maria. Maria deu à luz Jesus, que é chamado Cristo”. A fiel Rute e o justo Boaz não apenas foram os tataravôs do grande rei de Israel. Eles também estão na genealogia daqueles escolhidos por Deus para o Senhor enviar Seu Filho ao mundo a fim de trazer a salvação.

Muitas vezes, podemos achar difícil acreditar que Deus está realmente agindo em nossa vida. Ele parece estar escondido de nós. Como Noemi, podemos menosprezar a vida porque não temos certeza de que o Senhor está ativamente envolvido nela.

Nosso viver pode parecer aleatório e acidental. Mas Deus está agindo em meio aos acontecimentos, naquilo que parece “acaso” em nossa vida. Naquilo que parece comum, Ele está fazendo algo extraordinário.

O Senhor não é encontrado apenas no que é miraculoso e extraordinário. Ele está trabalhando em nós e por nosso intermédio no cotidiano. Podemos pensar que a vida está em nossas mãos. Mas, mesmo quando não vemos Deus em ação, podemos ter a certeza de que o Senhor está agindo em nosso favor.

Rute escolheu entregar sua lealdade a Deus e ao Seu povo. Essa decisão pode ter parecido insignificante, mas transformou a vida de Noemi e mudou a história.

Como cristãs, estamos envolvidas numa trama incrível. Não há dias comuns ou escolhas insignificantes. Se víssemos a nossa vida como Deus a vê, ficaríamos surpresas.

—Alice Mathews

 

QUESTÕES PARA REFLEXÃO

  1. Descreva algum acontecimento em sua vida que aos seus olhos pareceu ter sido coincidência.
  2. O que aconteceu que a fez olhar para trás e concluir que tal coincidência, na verdade, era ação de Deus?
  3. Isso afetou a forma de olhar para outras “coincidências”?
  4. Como você vê o cuidado de Deus com sua vida?